China: “Ouvi dizer que querias ser padre”

Nasci há 26 anos na China. A minha mãe batizou-me quando era pequenino e pôs-me o nome de João, segundo contou-me, porque era um dos discípulos amados do Senhor. Os meus pais são cristãos e também os meus avôs maternos, que são camponeses. Eles transmitiram-me a fé.

No meu país é difícil assistir à santa Missa pela falta de sacerdotes, e um cristão pode assistir normalmente 10 ou 12 vezes por ano. Todos os Domingos uma das famílias cristãs da comunidade põe à disposição a sua casa e ali se encontram as outras famílias para rezar e escutar a Palavra de Deus. Lembro-me bem da minha mãe ensinar as crianças a rezar o Terço.

Desde cedo preparei-me para estudar e ir para a universidade. Um dia convidaram-me para celebrar o «Dia das vocações sacerdotais e religiosas». Nesse mesmo dia, um amigo enviou-me a seguinte mensagem para o meu telemóvel: «é verdade que tu queres ser sacerdote?». A resposta natural teria sido um «não», porque não era para mim, nem estava preparado, nem sequer tinha pensado nisso, mas a minha resposta foi «sim». A partir desse momento a minha vida mudou.

O Bispo sugeriu-me que continuasse a estudar e que pensasse bem. Um ano depois escrevi-lhe a pedir que me admitisse para estudar para ser sacerdote. Ora isso era um problema porque no meu país não existem seminários na forma tradicional. A sua resposta foi «já verei como fazer»; e perguntou-me como estava o meu Inglês, ao que respondi: «péssimo».

Um mês depois, através de um sacerdote, chegou-me a resposta oficial de que estudaria em Roma. Tinham conseguido uma bolsa para que me formasse no Seminário “Sedes Sapientiae” e que estudasse na Universidade Pontifícia da Santa Cruz. Dois meses antes de partir fui a Pequim para estudar italiano, e reforcei esse estudo em Roma, outros dois meses antes de começar as aulas.

A minha mãe, que é uma boa cristã, ficou com o coração partido como todas as mães: por um lado, estava feliz com a minha decisão, mas, por outro, sabia das dificuldades dos sacerdotes chineses e propunha-me que continuasse com os estudos e esquecesse o sacerdócio. Eu respondi-lhe: «Mamã, não digas isso que o demónio fala por ti». Há cinco anos que não vejo os meus pais, nem a minha família. Sigo os acontecimentos familiares – o casamento do meu irmão, o nascimento da minha sobrinha – pela internet.

Neste ano de 2015 terminei os estudos de Teologia e estava à espera da decisão do meu Bispo para me ordenar como diácono. Mas ele aconselhou-me a não regressar enquanto não termine todos os meus estudos, porque é menos arriscado. Conheço um sacerdote a quem tiraram o passaporte e os outros documentos e nunca mais lhos devolveram. Esta é uma forma de tortura moderna porque uma pessoa perde a sua própria identidade; sem documentação passa-se a não ser nada na sociedade civil. O meu Bispo propôs-me que continuasse os estudos de Direito Canónico porque no futuro a nossa região vai necessitar de um tribunal e de três canonistas. Por agora só temos um e eu seria o segundo.

Graças aos benfeitores vou continuar os meus estudos e depois regressarei para servir os cristãos do meu país. Na minha Província, andam a tirar as cruzes das igrejas; alegam que a religião é uma coisa do âmbito privado e que não se devem tornar públicos os seus sinais porque, além disso, seria uma desigualdade com outras religiões.

Numa paróquia da minha diocese, há uma cruz que não está muito visível. Há um camponês do lugar que diz aos mais novos: «só sei que a Cruz é a minha vida; se quiserem tirar a Cruz, antes têm que tirar-me a vida». E abraça-a diariamente.